BUREAU + Magê: Receita para criar uma revolução na moda

Quando se começa a criar uma criança?

Esta simples pergunta abre o texto de forma excêntrica. O que será que encontrarei nas palavras seguintes? Como esta pergunta se conecta a este blog? E a moda? Antes de citar a fonte e também a resposta, é importante dizer que tudo está conectado; que padrões se repetem e soluções para um problema serão encontradas se nos afastarmos das nossas noções pré concebidas para um lugar que estimule a criação de novas realidades.

Pois bem, voltemos à pergunta inicial. Será que começamos a criar uma criança já a partir do seu nascimento? Pensando bem, talvez um pouco antes, ainda na concepção? A resposta provocante para essa pergunta é:  100 anos antes de a criança nascer, pois é quando você começa a construir o ambiente onde essas crianças vão viver. A reflexão eu trago do livro de Dan Barber, chamado “O terceiro prato – observações sobre o futuro da comida”.

Em específico, o autor relata um diálogo com um bispo menonita, no qual este explica a proibição de pneus de borracha em suas fazendas:

“[…] os pneus de borracha permitem movimento fácil, e movimento fácil significa que inevitavelmente a fazenda vai crescer, o que significa mais lucro.

Mais lucro por sua vez, leva à aquisição de mais terras, o que geralmente significa menos variedade de safras, maquinaria maior e assim por diante.

Não demora muito e o produtor começa a se sentir menos íntimo de sua terra. É a falta de intimidade que leva à ignorância e finalmente à perda”.

O bispo descrevia o problema da agricultura americana. Citando a história dos tratores com pneus de borracha ele exemplificou o fracasso em uma geração. Será que vemos um paralelo desse fracasso na moda? Certamente você já viu esta história acontecer com alguma marca. Um contexto em que o(a) fundador(a) começa a se sentir menos íntimo(a) de sua criação e a falta desta intimidade leva à ignorância e à perda?

Gosto de exercitar este paralelo do universo da comida com o universo da roupa. Certamente a culinária é um lugar estimulante para a criação de novas realidades para a moda. O que vejo é que o primeiro universo vem se reinventando há mais tempo, encontrando saídas e soluções incríveis para a alimentação.

No documentário Chef’s Table (Volume 1, Netflix) Dan Barner apresenta o seu restaurante Blue Hill, em Nova York, e o Blue Hill at Stone Barns, em sua fazenda próxima. Ele questiona o modelo industrial e as monoculturas da agricultura convencional com movimentos chamados de From Farm to Table e Eat Local.

O que faz uma boa comida, um bom restaurante? Os ingredientes, a proximidade nas relações, o conhecimento dos processos, a transparência, as técnicas sustentáveis, a tecnologia bem usada. Para um bom chef, como Barber, quando você se importa de verdade com a boa comida você acaba se importando com a maneira como é produzida, de onde vem. Porque não há uma cenoura verdadeiramente deliciosa sem um ambiente correto para cultivá-la. Esta cenoura saborosa e deliciosa vem, muito provavelmente, da agricultura local, que usa o solo da maneira certa, e com a semente adequada, orgânica etc. E quando você junta as peças você está falando de um sistema alternativo, guiado pelo sabor.

Sabemos também que as escolhas dos consumidores são uma arma efetiva para mudar o sistema. Em última instância, são os principais atores neste movimento.

Mas os consumidores devem ser educados e o melhor que os chefs podem fazer é agir como curadores, mostrando o que é a boa comida ao consumidor, educando-o e inspirando-o. Pois bem, será que está aí a receita para criar uma revolução na moda?

Instagram: @bluehillfarm
Fotos:
Dan Barber.

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Maria Eugênia

Maria Eugênia

Magê é estilista há quase uma década, se define como curiosa visual e com mais de um pé na antropologia. É bailarina passional, nascida de 7 meses - em todos os sentidos - e aquariana reclusa. Vem costurando temas como moda, sustentabilidade, arte e tecnologia nos últimos anos. É co-fundadora e diretora criativa e de conteúdo da marca UseVerse (roupas para o movimento). Também consultora para startups em design estratégico e desenvolvimento de marca e produto. Com olhar atento ao processo produtivo, à base, busca novas formas de fazer e colaborar. E acredita na união do corpo, mente e alma para escolhas com maior consciência e equilíbrio.

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