Por que falar de Martin Margiela continua sendo tão atual?

O Bureau vem acompanhando com entusiasmo as retrospectivas em torno da trajetória de Martin Margiela. Recentemente, o designer belga ganhou duas grandes exposições em Paris. Uma no Musée des Arts Décoratifs sobre a época em que foi diretor criativo da Hermès, e outra no Palais Galliera (Museu da Moda) sobre o período à frente de sua marca homônima, entre os anos 1989 e 2009.  Pra rechear ainda mais as homenagens, um documentário sobre sua vida está sendo produzido neste momento, com o aval e a colaboração do próprio Martin. Ou seja, podemos esperar uma biografia muito bem trabalhada e intimista sobre ele, que sempre evitou os holofotes e quase nunca dá entrevistas.

Mas por que prestar atenção em Margiela justo agora? Todo esse revival diz muito sobre o que o seu legado representa para a Moda e o momento atual que vivemos. Martin foi um vanguardista em uma série de conceitos. Vêtements, Off-White, Marques’ Almeida e diversos novos talentos da Moda são nitidamente inspirados pelo trabalho de Margiela. Representatividade, upcycling, colaboração e ativismo, pautas tão discutidas atualmente, sempre estiveram presentes no universo de Margiela.

Olhar para o passado é uma forma de entender o presente e buscar as referências certas, com mais riqueza e profundidade.

O Bureau foi conferir de perto, Margiela Galliera – 1989/2009, em cartaz no Palais Galliera, e te conta por que continua sendo tão atual falar de Martin Margiela.

Formado pela Académie Royale des Beaux-Arts d’Anvers, o belga criou sua marca no final dos anos 80, quando se mudou para Paris. Nunca se propôs a ser uma referência de “glamour” pra Moda. Nomes como Margiela surgiram pra chacoalhar o status quo, nos fazendo repensar uma série de costumes e rótulos estabelecidos pela indústria. Cria de Jean Paul Gaultier (de quem foi assistente), fã de Rei Kawakubo (Comme des Garçons) e Vivienne Westwood, nunca chegou a ser propriamente um punk. Pra gente, Margiela é uma espécie de cientista. Alguém que experimentou novas formas, proporções, materiais, jeitos de vestir, desconstruindo e repensando a Moda de maneira transgressora.

Margiela em foto rara. O designer sempre foi muito reservado, evitando ao máximo os holofotes.

 

UPCYCLING: Margiela foi o primeiro designer a pensar o upcycling e a sustentabilidade, quando este assunto nem se quer estava em pauta no mundo. A linha “Artisanal”, por exemplo, surgiu como fruto do reaproveitamento de roupas e objetos usados. Martin cortava as peças e as transformava em únicas, o que já era uma crítica expressa aos modos de produção em massa da indústria da Moda. Inicialmente, por se tratar de algo transgressor pra época, seu trabalho sofreu muitas críticas por parte da imprensa. Em resposta, ele disse:

“Quando eu decupo uma roupa nova ou antiga, eu não penso que estou destruindo-a. É uma maneira de fazê-la renascer em uma outra forma”.

Para o Verão de 1992, Martin, que normalmente não trabalhava com estampas, criou peças a partir de lenços vintage garimpados, formando patchworks que poderiam, inclusive, ter sido desfilados no último verão, pois o conceito continua bastante atual.

Um dos sucessos de sua coleção Inverno 2000 foi um casacão feito a partir de um edredom, que podia ser usado sozinho ou por dentro de uma capa feita a partir de lençóis floridos dos anos 1970.

Acima, blusa confeccionada para a Verão de 2001 com etiquetas garimpadas de diversas marcas, não necessariamente conhecidas.

 

RÉPLICAS: Martin sempre foi aficionado por História da Indumentária e da Moda e desde cedo gostava de frequentar exposições do gênero, buscar inspirações e adquirir peças únicas. A partir do Inverno de 1995, ele passou a desenvolver a linha “Réplica”, de peças pesquisadas e adquiridas por ele, que depois eram reproduzidas e postas à venda. Em respeito aos criadores originais, que muitas vezes eram desconhecidos, Martin não costurava a etiqueta da Margiela na peça. A roupa trazia uma etiqueta especial que descrevia sua origem, o ano e outras informações relevantes. Afinal, seria uma cópia?  As peças escolhidas a dedo mundo afora, na maioria das vezes, eram puramente funcionais. Algumas delas eram adquiridas em péssimo estado. O conceito da linha Réplica, de certa forma, se propõe a preservar a História e o Design de Moda, pra que não se percam ou sejam esquecidos. Certa vez, Martin declarou:

“Eu gosto de roupas que não criei”.

 

REPRESENTATIVIDADE: Martin nunca usou modelos convencionais em seus desfiles. Diversas vezes, convidou mulheres de idades, profissões e nacionalidades diferentes pra apresentar suas coleções. Ele costumava dizer:

 “As mulheres que apreciam minhas roupas compartilham de uma certa mentalidade, ao invés de um aspecto ou idade”.

 

COLABORAÇÃO & CUSTOMIZAÇÃO: em 1991, Margiela foi convidado pelo Museu Galliera junto com mais cinco criadores para expor seu universo criativo. O time era composto por Jean-Charles de Castelbajac, Jean Paul Gaultier, Romeo Gigli, Sybilla e Vivienne Westwood. Na ocasião, ele escolheu expôr três modelos de sua bota icônica, a Tabi, pintados de branco. A ideia era que os visitantes da exposição pudessem escrever o que quisessem nas botas, customizando-as com canetinhas azuis, pretas e cinzas. Os mesmos modelos foram usados mais tarde no desfile do Verão de 1992.

 

DIY: em meados dos anos 90, na expectativa de criar um pulôver fininho, mas sem um fornecedor que pudesse realizá-lo, Martin teve que improvisar. Comprou oito pares de meias em uma loja ponta de estoque de uniformes militares e criou o “pulôver meia”, no melhor estilo Do It Yourself (Faça Você Mesmo). O making of de cada etapa na construção foi registrado em um workshop, como forma de incentivar as clientes da marca a criarem suas próprias peças.

Acima, o passo a passo do “pulôver meia”. Que tal tentar fazer o seu?

Para o Verão de 1996, Martin queria uma versão minimalista de sua Tabi. A ideia era dar a impressão de não estar calçando nada nos pés. Sem alternativa de como produzi-la na época, ele improvisou mais uma vez: enrolou os pés das modelos com fita adesiva colada à base do calçado.  Simples assim.

 

ATIVISMO: no final dos anos 80, quando a Aids veio à tona, era um tabu falar sobre o assunto. Lançada no Inverno de 1995, a “Aids T-shirt” foi uma das primeiras iniciativas de caridade no mundo da Moda na luta contra a doença. A camiseta estampava a frase “Há mais ação para ser feita no combate à Aids do que usar essa camiseta, mas é um bom começo”. Martin decidiu estampar a t-shirt enquanto ela estava dobrada, pra que a frase não fosse totalmente legível e assim pudesse despertar a curiosidade e o debate sobre o tema. Desde então, a t-shirt passou a estar presente em todas as coleções da marca, sempre em uma nova cor, tendo os lucros das vendas doados à Association Aides France.

 

OVERSIZED: Margiela foi um dos primeiros a explorar o conceito do oversized, chegando a ampliar suas roupas em 200%. Isso, de fato, causava estranheza, mas era uma maneira de questionar as proporções do corpo e os padrões de vestir. Se hoje, Vêtements e Balenciaga são tendência ao exporem looks xxxx large nas passarelas, isso se deve a Martin Margiela. Demna Gvasalia, diretor criativo das marcas, foi assistente do estilista, e muito de seu trabalho sofre influência dos anos em que trabalhou na maison. Pra fabricar seus looks xxxx large, Martin usou como base um manequim vintage de 1932, equivalente ao tamanho 44 americano.

Pra a coleção Verão 2000, comprou alguns vestidos coloridos vintage dos anos 1960 e os desconstruiu, ampliando a sua forma em 200%. Na imagem, Chloë Sevigny em editorial fotografado por Mark Borthwicks para a Purple magazine

 

MAIS QUE UM DESFILE: muitas vezes, Margiela optou por mostrar suas coleções fora das passarelas convencionais. Em certa ocasião, desfilou duas coleções ao mesmo tempo em locais diferentes. Uma delas, em um estacionamento, outra, em um hospício abandonado, transformado em uma ocupação artística. Em outro momento, recebeu convidados em sua maison para assistirem ao desfile gravado em um filme Super-8 dirigido e comentado por ele mesmo. Em 1994, ao invés de organizar um desfile, optou por expor suas peças dentro de um supermercado desativado. Naquela ocasião, não foram apresentadas roupas novas. Pela primeira vez na história, um estilista fez uma coleção retrospectiva, reeditando seus modelos preferidos dos últimos cinco anos, desde a criação de sua marca. As peças apresentadas eram compostas no mesmo material que as originais, mas se diferenciavam por uma tintura cinza e por uma etiqueta com a data de criação estampada. Outra curiosidade, em todos os desfiles/lançamentos da Margiela são oferecidos vinho tinto em copos de plástico (será que atualmente é plástico biodegradável?). Uma maneira irreverente de brincar com os hábitos das grandes maisons de luxo, que estão acostumadas a servir champagne em taças de cristal.

Margiela criou a primeira coleção retrospectiva na História da Moda, apresentada em 1994 em um supermercado desativado de Paris. Na ocasião, as modelos vestiram ícones da marca reeditados, com as respectivas datas de lançamento carimbadas no pescoço.

 

ASSINATURA DE MARCA: recentemente, falamos por aqui sobre a importância da assinatura. As marcas mais consistentes e reconhecidas, são aquelas que possuem assinatura forte e isso não tem nada a ver com o fato de expor um logotipo ou uma etiqueta. Tem a ver, sobretudo, com a maneira de se trabalhar um estilo proprietário. Por exemplo: peças icônicas, cores e estampas reconhecíveis, shapes singulares. Cada marca deve buscar a sua própria assinatura, que seja duradoura, ultrapassando qualquer tipo de tendência passageira. Se pensarmos em Margiela, podemos destacar uma série de ícones constantemente presentes em suas coleções.

A começar pelo fato dele nunca expor um logotipo. Sabe como a gente reconhece uma peça Margiela facilmente? É só olhar pros quatro pespontos aparentes do lado de fora das peças. São os mesmos pespontos que prendem a famosa etiqueta numerada, do lado de dentro da roupa. A numeração estampada na etiqueta representa as linhas da marca.

A bota Tabi: a tabi está presente em todas as coleções da Margiela. A bota de origem japonesa possui uma divisão muito característica no dedão do pé e costuma ter o comprimento na altura dos tornozelos ou metade das canelas. No Japão, existe uma versão em forma de meia e outra, mais rígida, normalmente calçada por trabalhadores. A ideia de usá-la surgiu quando Martin viajou ao Japão. Ao retornar à França, ele reeditou o design da Tabi e começou a produzi-la em diversos shapes, cores e materiais.

Desconstrução: esse conceito está presente tanto nas peças oversized, quanto nos shapes assimétricos e nas peças com o lado avesso aparente. Margiela sempre amou vestir peças ao avesso, com costuras e aviamentos visíveis. A roupa do avesso passou a ser uma assinatura da marca desde o Inverno de 1991.

Foco nos ombros: Margiela se tornou conhecido por experimentar e repensar as silhuetas do corpo feminino, mas ao longo de sua trajetória, o ombro exerceu papel fundamental nessa (des)construção. Abaixo, um sketch feito pelo próprio Martin mostra a evolução dos ombros no decorrer de suas coleções:

Máscaras: a ideia de cobrir o rosto das modelos surgiu para que o foco e a atenção se voltassem para as roupas desfiladas.

Trompe-l’oeil: falsos relevos, shapes que enganam o olhar, estampas muito bem-pensadas imitando texturas, como  pregas, paetês e tricot.

O trompe-l’oeil em dois momentos, no Verão de 1996 e no Verão de 1999

O famoso “Poster Dress”

E você aí achando que a “bota meia” tinha sido inventada pela Balenciaga… ;)

Cor branca: se o vermelho está para Valentino, o branco está para Margiela. Presente no visual merchandising das lojas da marca, dentro dos escritórios, usado pela equipe (que veste jalecos na cor branca) e, também, pintado em peças de roupa selecionadas.

Isso sem contar o que já citamos acima, como o upcycling, as réplicas, a representatividade, o ativismo, o vinho tinto… Tudo isso também é assinatura de marca. É o que torna a Margiela tão única e especial.

Depois da saída de Martin, a marca sofreu muitas mudanças. Em 2002, foi comprada pelo grupo italiano OTB, que detém marcas como Diesel, Marni, Paula Cademartori e Viktor & Rolf. A entrada de John Galliano como diretor criativo trouxe um novo sopro de inovação para a Margiela, embora, muitos conceitos tenham se perdido. No entanto, a influência de Martin Margiela na Moda continua presente e atual.

A expo no Museu Galliera só vai até o dia 15 de julho, mas no Musée des Arts Décoratifs fica até o dia 2 de setembro. E nós, por aqui, aguardamos ansiosamente o documentário que deverá sair em 2019. <3

Marina Giustino

Marina Giustino

Marina Giustino é a nossa Pesquisadora de Moda mezzo brasileira/ mezzo italiana. Sol em Peixes com ascendente em Escorpião, é apaixonada por cores, listras, poás, bananas, História da Moda, Arte, Música e açaí com granola.

Deixe um comentário

O que fazemos

Branding

Consultoria de Estilo

Palestras

Vivências para inovação

Pesquisa

Projetos especiais

Criável

RIOetc

Receba nossas news