Uma breve reflexão sobre a indústria da moda

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Há algumas semanas atrás uma cliente da loja de departamento Primark  encontrou uma etiqueta costurada em seu vestido que dizia: “Forçado a trabalhar por horas desgastantes”. Embora possa ter sido uma brincadeira ou intervenção artística,  o horror sentido pelos clientes da loja, que foram olhar as etiquetas de suas roupas e encontraram outros pedidos de socorro, fez com que muitos de nós, que trabalhamos na indústria da moda, refletíssemos sobre o nosso papel na sociedade e sobre o nosso modo de produção.

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Procurada pelo jornal inglês “The Guardian“, a Federação Nacional dos Trabalhadores de vestuário (NGWF) – maior federação sindical neste setor em Bangladesh – informou que a má remuneração e as condições precárias de trabalho não são exclusivos da Primark, mas sim “aplicável a quase todas as marcas que produzem em Bangladesh”. No Brasil, sabemos que não é diferente, ano passado mesmo uma fábrica com trabalhadores bolivianos foi encontrada em São Paulo, o regime de trabalho que acontecia lá foi comparado com escravidão.  Ao serem “libertados”, os trabalhadores entrevistados afirmaram que, sem emprego, suas condições de vida poderiam ficar ainda pior, pois não tinham recursos para voltar para a Bolívia e, mesmo que tivessem, não encontrariam emprego por lá. Além disso, após a demissão, não tinham mais como se alimentar nem onde morar ou enviar dinheiro para a família, que necessitava dos valores enviados para sobreviver.

Será mesmo que vivemos num regime capitalista tão cruel que quase nos leva a acreditar que a escravidão é uma necessidade? E, diante desta triste realidade,  será que boicotar as grandes marcas de fast fashion pode ser uma solução para este problema?

Na entrevista concedida ao The Guardian, a NGWF afirma que seu propósito não é ver a destruição da indústria através de boicotes de consumidores,  já que não existem outras oportunidades de emprego para os quatro milhões de mulheres que trabalham fábricas de Bangladesh e tantas outras ao redor do mundo.

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A Federação trabalha para que  as corporações elevem os salários  de seus funcionários e melhorem suas condições de trabalho:  “As pessoas no Reino Unido deve pedir informações à marcas como a Primark, a Marks & Spencer, Edinburgh lã Mill ou New Look sobre  a realidade da sua cadeia de abastecimento”, diz Amin. “Elas deveriam pressionar as marcas a divulgar quem são os seus fornecedores e a assinar o acordo de Bangladesh, para garantir um preço justo pelas peças de vestuário produzidas e pagar um salário digno aos trabalhadores de vestuário.”

Outros grupos  como a War on Want e do Labour Behind the Label estão ajudando os trabalhadores e  grupos de consumidores também estão entrando em contato com NGWF para discutir como eles poderiam ajudar.

Aqui no Brasil, ainda não existe nenhuma ONG que se dedique exclusivamente ao assunto (se existir, por favor, entre em contato com a gente!), mas a ONG Repórter Brasil, coordenada pelo jornalista Leonardo Sakamoto, considerado o abolicionista do século 21, criou no fim do ano passado o app Moda Livre, que  se propõe a acompanhar de perto esses casos – e orientar os consumidores na hora de fazer uma compra consciente. E a Associação Brasileira de Varejo Têxtil (ABVTEX), sempre preocupada em criar nos empresários do varejo de moda uma cultura ética relacionada às questões de condições de trabalho dos seus funcionários e também com relação à importação, que enfraquece a indústria nacional, criou o  “Manual de Recomendações de Rotinas de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo de Imigrantes”, que, como o próprio nome diz, visa instruir as empresas sobre como evitar e combater esse tipo de mão de obra. Para ter acesso à ele, basta clicar aqui.

Iniciativas como essa são um bom início para as marcas que se preocupam com essas questões mas não sabem por onde começar a buscar informação. É importante que as marcas comecem a conhecer os locais onde suas roupas são produzidas e  a se preocupar em ter mais informação sobre o trabalho de quem está produzindo suas roupas. Os consumidores, do outro lado, devem cobrar das marcas informação sobre as condições de trabalho dos produtores e também informações sobre descarte de material etc.

O nosso consolo é saber que qualquer um de nós pode fazer algo para iniciar a transformação que tanto desejamos e transformar a moda num mercado mais limpo, justo e sustentável.

 
#feitonobrasil

Elis Vasconcelos

Pesquisadora do Bureau de Estilo Renata Abranchs desde 2007, professora de pesquisa de moda e comportamento do consumidor, jornalista e mestranda em Mídia e Cotidiano na UFF. Ama viajar, observar as pessoas, os modos e as modas. Uma qualidade: bom humor (quase) eterno. Um defeito: se acha lenta; mas aprendeu a conviver bem com isso, acha mesmo que o mundo anda rápido demais.

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