BUREAU + Magê: Curadoria; uma relação íntima com Valor Compartilhado

Com esta etiqueta na mão, recém tirada de uma linda peça de roupa que comprei, gosto de imaginar quem é a Renata. Está escrito aqui que foi ela quem costurou minha calça, do início ao fim. Será que a letra é dela? Aqui diz também que a produção é local, e esta marca levanta a bandeira!

Gosto daquela imagem de uma gotinha, em câmera lenta, que ao pingar em calmas águas gera suaves ondas que vão se propagando. Pois bem, costumo imaginar esta marca como uma gota que trouxe uma vibração positiva para a sociedade local. Tenho visto algumas marcas assim. Pra falar a verdade, sou praticamente curadora de marcas assim. Quero saber mais e mais sobre suas histórias para decidir se entrarão na minha vida ou não.

No fundo, quero me conectar ao propósito delas, algo que no meu ponto de vista (aqui, como consumidora) começa com uma interessante empatia. Estou falando de uma forma superior de capitalismo, aquele em que o lucro da empresa envolve um propósito social.

A mentalidade não é de “responsabilidade social”, na qual as questões estão à margem daquilo que a empresa faz, mas sim no centro. Em termos um pouco mais técnicos, este é o princípio do Valor Compartilhado: um jeito de gerar valor econômico criando também valor para a sociedade.

Antes de aprofundarmos um pouquinho mais nesta prática, acho que é importante dizer também o que não é Valor Compartilhado: não tem a ver com partilha do valor já gerado pela empresa, não tem a ver com valores pessoais, não é filantropia, não é sustentabilidade e, como já disse, não é responsabilidade social. Estou falando de uma nova forma de obter sucesso econômico, sem degradar a comunidade na qual a empresa está, muito pelo contrário, trazendo progresso à ela.

Quando falo de Valor Compartilhado, tomando agora um exemplo de uma marca de café, estou indo além de um comércio justo (aquele que paga um preço mais elevado para o agricultor de baixa renda, pelos mesmos produtos, por exemplo). Quero me referir a uma transformação, aquela cuja relação, entre empresa e comunidade, evolui para melhorias de técnicas de cultivo e fortalecimento dos diferentes fornecedores da cadeia de valor, a fim de aumentar a eficiência, o rendimento, a qualidade e a sustentabilidade das plantações.

Neste exemplo falo da Nespresso, um caso clássico em que a Nestlé teve sua produtividade aumentada quando se empenhou em organizar seus fornecedores em cada região cafeeira, aumentando o acesso à mudas, fertilizantes, equipamentos de irrigação; ajudou às cooperativas agrícolas a financiar instalações coletivas para produção de grãos de alta qualidade; apoiou um programa de assessoria aos agricultores sobre técnicas de cultivo e trabalhou com uma importante ONG (a Rainsforest Alliance) que levou ao produtor técnicas mais sustentáveis que garantem volume de produção. Para saber mais, é só clicar aqui.

Não vejo outra maneira de uma empresa aprender a gerar Valor Compartilhado além de começar a perceber profundamente as necessidades, os benefícios e os malefícios sociais que estão, ou poderiam estar, associados aos seus produtos. Isso significa estabelecer um vínculo muito forte com um determinado lugar. É ser local, antes de mais nada.

 

Gosto muito da Vert (lá fora a marca chama-se Veja), e claro, que não é a toa. A marca de tênis não fabrica na Ásia, fez questão de produzir perto da fonte dos melhores insumos. Tomando como exemplo o algodão, a empresa começou a trabalhar diretamente com a associação dos produtores de algodão orgânico no Ceará – ADEC; estabeleceu planos de compra antecipada; ajudou no financiamento de certificações e selos; apoiou um programa de apoio técnico de engenheiros agrícolas aos produtores de algodão orgânico ajudado-os a adotar a agro-ecologia, criando, por exemplo, uma proteção natural para as plantas de algodão, plantando árvores cujo o óleo extraído das frutas cria um repelente natural contra insetos que atacam o algodão. Além disso, o algodão agro-ecológico é plantado no mesmo campo de culturas de subsistência, sem fertilizantes químicos ou pesticidas, integrando-se ao milho, gergelim e feijão. E não é só no algodão! A Vert também vibra positivo com a borracha que usa, entre outras matérias primas e processos.  Para saber mais, clique aqui.

O legal é que quando uma empresa entende o Valor Compartilhado, significa que ela está sendo holística e toda decisão importante é sob essa ótica.

Afinal, a competitividade (criatividade, diferenciação, qualidade) de uma empresa e a saúde das comunidades ao seu redor, estão intimamente interligadas.

Antes de terminar, cito também o HackTown, um festival de inovação e criatividade que acontece há 3 anos, no sul de Minas Gerais. O festival ocupa diversos estabelecimentos da pequenina cidade de Santa Rita do Sapucaí. Palestras, showcases e workshops acontecem simultaneamente em salões de restaurantes, salas de aula e praças. Além de atrair 4 mil pessoas para o comércio da cidade, a organização desenvolveu parcerias com startups encubadas pelas faculdades da região, que testam seus produtos; passou a colaborar na divulgação de pacotes turísticos recém criados por agências da cidade; ajudou a organizar uma rede de moradores que alugam seus quartos para os clientes do festival e distribuiu dicas para os moradores a fim de se criar uma cultura de turismo mais organizada, comparada com a do carnaval com que a cidade (de muitos universitários) estava acostumada. Não tenho dúvida de que se cria um círculo virtuoso.

Enfim, acredito que o lucro certo é aquele que gera benefício para a sociedade. Imagine quando toda empresa buscar o Valor Compartilhado? Como será nossa sociedade?

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Magê + Nor

Magê + Nor

Magê, híbrida, hoje é estilista e yogini, consultora de design estratégico, desenvolvimento de marca e produto. Curiosa visual com mais de um pé na antropologia e fundadora da UseVerse (activewear + beachwear). Nor, amante da tecnologia criativa, consultor de estratégia empresarial e transformação digital, investidor anjo, curioso, detalhista, comunicador, roteirista e poeta. Acreditam que o auto-conhecimento é o ponto de partida para a criação de projetos que impactam o mundo. Sonham em abrir um restaurante natureba e, juntos, unem forças, tarefas e compartilham inspirações e vida.  @useverse | @mage_maz | @normanoribeiro 

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